Piloto de prova é profissão de riscos e emoções
- Friday, October 23, 2009, 0:00
- Aviação
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Figura mitológica alada, Ícaro é a mais recorrente imagem para conquistas espaciais. Se a superação de limites está ocasionalmente associada a desastres, essa ligação tem origem na própria lenda. Maravilhado com seu poder de voar, Ícaro rumou em direção ao Sol, o que derreteu a cera que mantinha atadas a seu corpo as penas que permitiam a façanha. Ícaro, como muitos pilotos em desastres aéreos, não teve a menor chance. É uma história que pilotos conhecem melhor do que ninguém. Mas medo não é uma palavra que se ouve nesses ambientes.
Todo piloto sabe que estes profissionais não podem ter restrições quanto a se colocar em situações difíceis. É preciso gostar do desafio, e muitas vezes enfrentar o desconhecido, especialmente pilotos de prova que muitas vezes não sabem exatamente o que irão encarar quando saem para pilotar um protótipo.
A formação tradicional de um piloto de prova é pela via militar. Normalmente, a carreira exige estudo e aplicação. Para atingir essa condição, um piloto da FAB (Força Aérea Brasileira) necessita concluir o curso de formação de oficiais-aviadores da AFA, que dura quatro anos. Também é preciso passar pelos cursos operacionais de formação de caça, líder de elemento e líder de esquadrilha – mais três anos, no mínimo, – e apresentar um currículo que o credencie a ser recomendado para prestar concurso de seleção para o curso de ensaios em voo. O curso de especialização no Centro Técnico Aeroespacial consome mais de 45 semanas.
A dedicação é fundamental nesta profissão, pois Código Brasileiro de Aeronáutica exige que o piloto tenha sua formação em escolas tradicionais. Além da Academia da Força Aérea, é possível fazer uma especialização de piloto civil no exterior.
A formação, entretanto, não garante um bom piloto de prova. Esse profissional, que voa não só em aviões militares de alto desempenho mas também faz testes nos troncudos modelos da aviação civil, precisa acima de tudo ser capaz de se apaixonar pelo avião. Afinal, para não ser apenas um bom, mas um excelente profissional, o piloto deverá gostar de avião de verdade, conhecer cada detalhe da aeronave. Isto porque é necessário uma percepção aguçada do avião.
É tarefa desses aviadores, por exemplo, realizar as missões que eles chamam de “voo de abertura de envelope”, um procedimento arriscado em que eles devem testar os limites da aeronave. O objetivo é testar as velocidades mais altas e observar possíveis fenômenos na estrutura, como o desprendimento de partes do avião.
É preciso estômago para acelerar um avião até que ele ameace cair aos pedaços. É bem verdade que o piloto nunca está sozinho – além de um engenheiro, que geralmente o acompanha nos voos, há uma outra aeronave, voando em proximidade e acompanhando o desempenho do veículo em teste. Mas também é fato que, se há um problema incontornável a bordo da aeronave, os vizinhos pouco podem fazer a respeito.
Geralmente o que a aeronave que está acompanhando faz é avisar o piloto sobre a altitude. Se o avião não estiver alto o suficiente, pode não haver tempo para uma descida segura da tripulação com o uso de pára-quedas. Nesse caso, quanto menor a altura, mais perigoso fica.
De qualquer forma, episódios assim, em que a nave é perdida e abandonada, são bastante raros. Desde a fundação da Embraer, em 1969, apenas um protótipo foi perdido nessas circunstâncias, um Tucano (avião militar), em 1982.
A rotina dos pilotos não envolve somente o sensível voo de protótipos. O grosso do trabalho consiste no teste de cada avião que sai da linha de montagem – o voo de produção. “Antes de entregarmos avião para o cliente, precisamos ter a certeza de que está funcionando de acordo com as especificações”, afirma piloto de prova.
Mesmo num país sem guerras ou grandes incidentes internos, como é o caso do Brasil, os pilotos de prova civis e militares não ficam atrás de suas contrapartes em nações mais belicosas. Ou seja, os pilotos de ensaio realizam no dia-a-dia as mesmas tarefas que realizariam durante um esforço de guerra. A grande diferença será a intensidade e urgência dos voos.
Por isso, a Divisão de Ensaios em Voo constitui uma reserva à disposição dos Comandos Operacionais. Os pilotos de ensaio estão disponíveis para cumprir sua destinação constitucional em combate.
Qual é a graça que os manobráveis caças têm que os grandes aviões comerciais não têm? Se dúvida, “a sensação de voo”, responde Marcos César Pontes, o primeiro astronauta brasileiro. “Existe uma grande diferença entre os dois tipos. Uma aeronave grande dá a você a satisfação da tecnologia dos instrumentos e da aviônica. Além disso, você tem a responsabilidade de ter passageiros. No caso da aviação de caça, você tem mais manobrabilidade, maior liberdade em ’sentir’ o que o voo tem a oferecer.”
Ao contrário do que alguns podem imaginar, não é preciso ser nenhum home de aço para ser piloto de caça ou aeronauta. Está tudo na cabeça. Pontes, com 1,68 m e 73 kg, parece ser o sujeito mais pacato do mundo. Mas, por trás de sua fala mansa e de suas descrições metódicas, precisas, pode-se vislumbrar o espírito de Ícaro – a vontade de desbravar fronteiras, sem se deixar atormentar pelos riscos.
No ar, não há muito tempo para se preocupar com a própria vida. “Já tive algumas panes interessantes”, ele diz num tom irônico. “Também já passei por algumas situações táticas de alto risco imediato. Já estive a ponto de ejetar algumas vezes. Mas não dá tempo para temer pela vida. Apenas para tentar salvá-la”, diz o astronauta. Todos os pilotos de combate, em especial os de caça e de ensaio em voo, já passaram por situações difíceis, em que a sobrevivência foi colocada em risco, diz profissional do Centro Técnico Aeronáutico.
“A gente conhece os riscos. Foi uma das coisas que aprendi com a vida de piloto. Nos tempos de Academia eu perdi um grande amigo num acidente. A gente precisa passar por cima e seguir em frente”, afirma Pontes
Só quem é piloto ou sonha em ser sabe o que esses ases da aviação sente. Eles têm amor pelo voo e pelas máquinas que proporcionam a vitória sobre os limites que a natureza impõe ao homem. Aos novos Ícaros pouco importa se astronáutica ou aeronáutica. “O que vale é o espírito de conquista.”
Obtenha mais informações em como se tornar um piloto da Força Aérea Brasileira no site da Academia da Força Aérea.
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